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sábado, 24 de setembro de 2011

O gosto das manhãs


Há pessoas que precisam de certo tempo, assim que acordam, para recuperar o prazer de se sentirem vivas. Espreguiçam-se na cama com fastio, deixando ao relógio a tarefa de eliminar os resíduos de mau humor que a noite deixou neles. Estão em dissonância até com sua respiração, precisando resgatar mentalmente alguma situação agradável para que o ato de levantarem não se transforme numa tortura. Nunca senti isso. E a clareza aumenta nesses dias de primavera, quando, ao abrir a janela, recebo uma lufada de perfume vindo dos pés de laranjeira e das glicínias. Fui abençoado pelos deuses com um humor fácil, ligeiro, assim que me sinto desperto. Só em raras situações, quando um grave problema ou dor física tomam conta de mim, não me considero disposto a experimentar o gosto pelas manhãs.

Tenho o privilégio de trabalhar em casa nas primeiras horas do dia. Durmo cedo e raramente acordo depois das sete horas. No máximo sete e meia, nos finais de semana. Com isso ganho disposição e tempo para fazer tudo o que quero e preciso. Sou um ser de hábitos, que acredita na rotina como um católico acredita no poder da confissão. Não vejo problema algum em repetir situações que me deixam feliz. Por mim, a vida inteira poderia se passar dentro de um pequeno espaço onde coubesse tudo que amo. Não estou disponível para o distante, o exótico. Gosto dos previsíveis abraços, das previsíveis palavras que recebo de meus amigos, dos previsíveis rostos que alimentam minha afetividade. Restrinjo meu mundo para que ele seja maior, para que eu possa explorá-lo em toda a sua extensão. Talvez um dos males contemporâneos seja o de nos cansarmos fácil demais de tudo. Só nos interessam as novidades. Que já nascem velhas.

Sinto, também, disposição para acolher o melhor, treinando meus olhos para as delicadezas. Faço um exame diário, na tentativa de encontrar as fissuras, os arranhões que me impediram de ficar bem em determinado momento. Não quero passar aqui a imagem de um ser que se alça acima dos demais. Essa percepção é resultado de um grau maior de atenção, apenas isso. De um constante observar-se, exercício que resulta na descoberta de falhas de comportamento que podem ser evitadas. Essa ração diária de lucidez é fruto das meditações que faço, da tentativa de não reagir à violência com violência. Seja ela de ordem física ou psíquica. Sinto-me mal toda vez que entro em conflito com alguém. Tenho horror a qualquer embate onde a agressividade seja a nota que conduz a discussão. Acredito mais em respostas do que em reações.

Assim, agrada-me cada vez mais me saber vivo em todas as horas que se derramam sobre mim. Risco, sempre que possível, a palavra planejamento da minha mente. Que tudo se faça ao correr das circunstâncias. Procuro me livrar do interesse pelas coisas materiais, ganhando assim largos espaços para a leitura, os passeios, o cinema, a busca pelo outro. Viver é rápido e não admite amadorismo. Sei que cometo muitos erros, mas não quero que eles definam minha fisionomia. E lembro sempre da frase que minha terapeuta me disse: “Você prefere ter razão ou ser feliz?” Esforço-me para abdicar da primeira, mesmo que o ego se contorça, raivoso, dentro de mim.

Nem sempre estou imune à inveja, mas não jogo xadrez com ela. Não me interessa desafiá-la. Apenas a encaro de frente, como um inimigo mais fraco do que eu. Já vi pessoas próximas sucumbirem, mesmo sendo ricas interiormente, porque acreditavam que outros não mereciam o que tinham. Ficavam paralisados diante de um falso fulgor alheio. Não percebiam que estavam sentadas sobre uma mina de ouro. Invejar é uma maneira de vestir a vaidade de modéstia.

Acordar nesta primavera e mastigar o gosto das manhãs. Saber, com humildade e reverência, que um dia a mais é um dia a menos, brincando com os minutos como uma criança faz com uma bala em sua boca. Ser essa criança, nascendo quantas vezes for preciso. Espreguiçar-se entre os lençóis embebidos de nossos corpos. Lá fora, o sol ou a chuva nos esperam. Depois, o fim. Mas bem depois, bem depois. 
Texto de Gilmar Marcílio

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A lâmina quente do CIÚME


Dói, dói tanto que parece uma lâmina quente atravessando a carne. O ciúme, com seus mil tentáculos, rouba a clareza, a lucidez, a inteligência. Você pode ser doutor em filosofia. Pouco adianta. Esse sentir dilacerante nada tem a ver com a razão. Ele se instala dentro da alma sem pedir licença, vira tudo de cabeça para baixo e se torna dono absoluto das suas ações. Amigos se mobilizarão para mostrar o absurdo do que está acontecendo. Pura perda de tempo. Por mais que um resquício de sanidade ainda tente abrir caminho dentro de você, ele será rapidamente derrotado.
Sim, as pessoas podem matar por ciúmes, pois ele flerta com a loucura. Não é preciso ter folheado as páginas de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, o mais alentado estudo sobre o tema, para saber disso. Argumentos não valem contra um poder que se alimenta da destruição. Conheci pessoas que perderam centros vitais só porque uma suspeita de traição pairava sobre a criatura amada. O ciúme nasce com a força maligna de um câncer, contaminando todas as horas. Alguns, ainda protegidos pelo desejo de se salvarem, buscam na terapia uma possibilidade de tomar consciência do absurdo que vivenciam. Porém, no mais das vezes, ele vai embora quando quer, à revelia de nossa vontade.

Querer alguém com a voracidade de um lobo faminto. Não conseguir mais comer direito, pensar incansavelmente no objeto da nossa paixão, não conseguir sequer trabalhar, quase não dormir mais à noite. Tal é o estado em que se encontram aqueles que contraíram essa espécie de vírus que cresce, cresce e domina tudo. Só quem já sentiu sabe: é o corpo que padece, que se retorce, que inaugura a tristeza nos olhos e paralisa os membros. O ciumento tem certeza absoluta que pode morrer disso de uma hora para outra. A respiração se torna mais curta, o peito arfa, as mãos se crispam. É o fim encontrando seu objeto, o aniquilamento dando bom-dia à sua vítima.
Esqueça a lógica, a prudência, a palavra que equilibra e aquieta. O ciúme brigará com todas elas. Quando chega a cura para essa enfermidade, não será incomum nos perguntarmos: “Como eu posso ter sido tão insano?” Percepção tardia, que pertence aos convalescentes, não àqueles que continuam caminhando no inferno. Para esses, é normal ter alucinações, imaginando que a qualquer hora podem ser trocados por outro. O inimigo mortal. Vigiam, na esperança vã de que seu radar emocional acuse qualquer indício que os autorize a atacar. Já não são mais seres civilizados. Retrocedem. É o animal ainda não polido pela cultura e pela convivência saudável que passa a ocupar todos os espaços.
Já vi homens e mulheres padecendo dessa dor. E ambos agem rigorosamente da mesma forma. Os instrumentos de que se valem podem ser diferentes, mas não o estado alucinatório em que mergulham. Talvez eles usem com mais frequência a força física, agredindo, em muitos casos, enquanto elas fazem manobras secretas para tirar do jogo quem as está impedindo de viver o seu amor.

Não existem teóricos do ciúme. Só se pode falar dele já o tendo experimentado. Sinto calafrios ao pensar que quase me especializei nisso. Hoje sou como um desses ex-viciados que estão bem, mas não podem se aproximar da droga novamente. As relações mais duradouras, que atravessam os anos, costumam aplacar em nós essa doença, pois outro nome não se pode dar.

Tenhamos compaixão de todos os ciumentos da terra. Eles padecem dos piores suplícios que se possa imaginar. Sabem que a lâmina é mortal, mas mesmo assim continuam enterrando-a cada vez mais fundo em seu próprio peito.

Texto de Gilmar Marcílio, extraído DAQUI.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ninguém vê a si mesmo



 

Por maior que seja o esforço, o resultado será quase sempre nulo. Não conheci até hoje ninguém (estou incluso na estatística) que conseguisse ver a si mesmo com isenção, com equanimidade. Estamos tão comprometidos em passar uma imagem que se aproxime da perfeição que nada é capaz de destruir essa trapaça mental que costumamos fazer. Mesmo que defeitos se sobressaiam gritantemente em relação às qualidades, serão essas últimas a ocupar um lugar de destaque no nosso diálogo com o outro.

[...]

De minha parte, tenho tentado, dia após dia, me desarmar e chegar sem escudos aos seres com que convivo. É certo que o resultado nem sempre é o desejado, mas a tentativa de reconhecer o que em mim é falho, as minhas obsessões, os demônios que me habitam, talvez mereça algum crédito. Provavelmente essa busca seja o resultado do meu cansaço em ver tantas pessoas placidamente sentadas em seu trono particular, com total desconsideração pelos desejos dos que os cercam. Quase sempre com a boca repleta de frases que fariam um ditador viciado em poder sentir-se aprendiz.

Não é fácil se despir desses auto-enganos que vamos laboriosamente alimentando ao longo da vida. Com isso não busco negar a importância da construção de uma boa imagem. Mas ela tem de ter pelo menos uma razoável relação com o que de fato somos. Caso contrário, morreremos com a falsa crença de que quem tem de mudar é a esposa, o filho, o vizinho, o colega. Uma pequena dose de honestidade é vital para desembaçar o vidro que colocamos entre nós e nós mesmos.

Vou persistir nessa interminável tarefa de trapacear um pouco menos comigo. [...] Somos mestres em disfarces. A segunda resolução é que desisti de tentar fazer o jogo do convencimento, essa tentativa de mudar quem está próximo. Pura perda de tempo. São decisões estritamente pessoais e que não podem ser forçadas por uma mão alheia, por mais leve que ela seja.

Eu sou o que menos sabe de mim. Sou meu maior desconhecido. Preciso de todos para retirar essa espessa camada que me impede de ver o óbvio. O difícil óbvio que muitas vezes embaralha o que deveria nascer encharcado de sinceridade. Se me furtar a isso, estarei cometendo a maior das traições, talvez a única que mereça esse nome.

Gilmar Marcílio

Extraído DAQUI

quinta-feira, 2 de junho de 2011

AMOR FATI


AMOR FATI
Apego-me como um náufrago a cada vislumbre de alegria

Amar o seu destino, amar o que existe em você. Nesta perfeita expressão que encontramos na obra de Nietzsche está circunscrito todo um itinerário de desenvolvimento do nosso ser. Isso me remete as tantas inquietações que nos assolam, aos desejos diversos que não coincidem com o que somos, com o que fazemos. Essa desordem interior – um desassossego à maneira de Fernando Pessoa – faz com que nos descuidemos do real, do que está desenhado na borda de cada dia.

No descontentamento que se vê nos olhos de muitos é provável que esteja presente uma incapacidade para se adequar ao real. Como se o que estivesse acontecendo ao nosso redor fosse sempre mais interessante. Só que os que estão próximos não raro olham para nós com a mesma inveja. E assim, querendo ser tudo, menos o que somos, acabamos por perder a substância que nutre a nossa vida. Que muitas vezes guarda a aspereza dos limões. Que dói e machuca e deixa em nós uma vontade de alheamento. Mas que passa, passa. A felicidade não pode ser apenas um breve intervalo em meio a toda essa fúria que estilhaça a alma.

Quero que minhas crenças sejam de outra ordem. Não recuso o percalço, a doença, a fragilidade. Mas me apego como um náufrago a cada vislumbre de alegria. Não à comemoração ritualista, essa que vem carregada de obrigações, de datas previamente agendadas. O que em mim é motivo de festa pertence ao pequeno, ao acidental. Se há um destino, um fado que seguimos até o esgotamento, eu desconheço. Cada vez mais creio no mistério do acaso. Por isso traço para mim uma rota que vai sendo alterada constantemente. Porque sei que sou o resultado feliz ou amargo de um encontro, um acidente de percurso, uma gratificação que nasce simplesmente por estar em disponibilidade.

Amor fati. Amor ao que é concreto, tangível. Sou uma esfera de possibilidades, paisagem do que fui, esboço futuro do que serei. Tenho sede de tudo que é palpável, mesmo que a imaginação, aqui, também tenha um papel importante. Não sonho com o destino do outro. Já estou na idade em que preciso me conformar com minha própria fisionomia. Sem mágoas, sem ressentimentos. Perdi e ganhei. Os que se aproximam de mim e os que partem rapidamente nada mais fazem do que continuar a esboçar um pouco mais da minha personalidade. Tudo isso parece ser uma brincadeira. Por vezes terrível, por vezes adorável.

Tenho esse frêmito que quer mais e mais vida. Gosto da filosofia porque ela me expande, mostrando não o que sou, mas o que ignoro. Tento fugir cada vez mais das conclusões. É tão perigoso acreditar que se saiba sempre as respostas. Melhor ir dando as mãos a quem está do nosso lado, ir tateando. Juntando pedaços que talvez algum dia possam nos dizer se há um significado, um sentido para esse aparente caos. A madureza cobra seu preço, mas também nos dá a percepção de tudo o que se desmancha sem que a gente perceba.

Eu quero mais tempo. Mas não um tempo rugoso, que me deixe ressentido. Busco a coragem para rever algumas lições. Sei que não conseguirei me graduar. Mas tenho a fome necessária para continuar abrindo todos os cadernos.

Autor: Gilmar Marcílio

terça-feira, 17 de maio de 2011

Demorei para ficar jovem




A jornalista Tetê Ribeiro, que participa do programa Saia Justa, disse recentemente uma frase espetacular: “Tem gente que demora muito tempo pra ficar jovem.” Se um dia eu escrevesse minha autobiografia, não tenho dúvida de que a colocaria como epígrafe do livro. Eu fui um jovem velho. Exemplar, exemplar demais. Sempre o primeiro da classe, o que sofria quando tirava uma nota inferior a nove. Não lembro de ter faltado a uma aula para ir ao cinema e muito menos de sair com uma turma de amigos para tomar uma bebida, namorar. Meu Deus, como eu me levava a sério quando era adolescente. É claro que o que se vê hoje nas lojas de conveniência dos postos de gasolina não serve como exemplo de transgressão saudável. É bandalheira mesmo. Mas permanecer fechado numa redoma, na época de maior liberdade da nossa vida? Isso acaba nos levando para o divã de algum analista. Ou a algumas frustrações e remorsos.

Acreditem, estou me recuperando. Aprendi, a duras penas, que posso e devo rir de quase tudo o que acontece comigo. Não quero mais o papel do que acerta sempre, do que fica paralisado, sentindo culpa, quando se surpreende fazendo alguma bobagem. Vejo tanta gente por aí batendo a cabeça nas paredes por erros insignificantes, que não precisariam ser contabilizados. Passou. Pronto. É se atribuir muita importância, convenhamos. Tenho tentado transformar cada dia numa festa particular. Gosto de chamar pessoas para perto de mim. Gosto desse contágio que a alegria promove, vinda de nós ou dos outros. Estou cansado dos que costumam dar expediente 24 horas por dia. Que não esquecem nunca de bater o cartão-ponto.

É possível, sim, conquistar a juventude aos 50, 60 anos. É por isso que viver é tão fascinante. Quando conseguimos nos desvincular de certos compromissos emocionais (não éticos) que estão na base da maioria dos sistemas políticos e religiosos, aí passamos a caminhar livremente. A pele pode acusar a passagem dos anos, a despeito de todos os recursos que a medicina coloca a nossa disposição. Mas há algo de bom que persiste: a descoberta de que a expansão da consciência e a busca de novas paixões não dependem de nenhum recurso externo. Só de nós mesmos. E aí a gente passa a exigir cada vez menos a realização das expectativas que colocamos em amigos, colegas, vizinhos, esposas e maridos.

Costumo fazer o seguinte trato comigo: para cada fato ruim que me acontece, tenho o compromisso de ir em busca de algo que me dê prazer. O equilíbrio, o elementar equilíbrio. Isso exige esforço e nem sempre o resultado é o desejado. Mas rompe com a inércia que geralmente sucede as situações frustrantes. Nada de ficar num quarto escuro se lamentando pelo ocorrido. Tendo saúde e uma razoável disposição emocional, para tudo se dá um jeito. Mas não para quem é e sempre será velho. Esses começam a economizar quando ainda são crianças. Vivem contando centavos e vão aplicando, aplicando. Guardam e fazem apostas. Não conseguem aproveitar nem os juros provenientes. Eu fui assim durante muitos anos. Hoje não tenho mais paciência para investir tanto no futuro. Quero sentir na carne o sabor de cada manhã. Só os que carregarem o meu caixão haverão de conhecer a minha imobilidade.

O que eu espero dos anos que virão? Muita arte, comida saudável, amigos, beijar e ser beijado, uma casa confortável, o silêncio de um bosque, encontrar alguém para entrelaçar as mãos, um cálice de vinho, dormir até mais tarde nos finais de semana, beijar e ser beijado, usar roupas claras, rir muito, comprar o mínimo possível, sofrer o mínimo possível, não esconder o que eu sinto, rezar. Ah, e beijar e ser beijado.

Gilmar Marcílio

Extraído DAQUI.

sábado, 30 de abril de 2011

E ainda sobra tempo

Sentimo-nos valorizados cada vez mais pela ação

Existe uma equação simples para tentar decifrar esse grande mistério da falta de tempo na vida das pessoas. É só parar e fazer a conta das horas desperdiçadas em atividades completamente inúteis. A relação é tão vasta que nem vale a pena fazê-la. Mas pode-se tentar uma tomada de consciência a partir de acontecimentos do nosso cotidiano. Você conhece uma situação que nos deixa com mais culpa do que não fazer nada? O corpo pode até estar em estado de repouso, mas a mente viaja quilômetros e mais quilômetros, sofrendo por tudo que deveria estar fazendo e não faz. Provavelmente seja por isso que muitos de nós damos um jeitinho de levar o notebook para a praia ou o hotel da cidade em que vai tirar férias. O ócio passou a ser o oitavo pecado capital dos nossos dias. Em gravidade, deve estar entre os primeiros.

Sentimo-nos cada vez mais valorizados pela ação. Empilhamos atividade sobre atividade e, ao fim do dia, a descoberta do não cumprimento de uma meta causa grande sofrimento. Contemplar tornou-se obsoleto, coisa de quem tem alma de poeta. Poeta extraviado. As estações passam por nós como se fossem todas da mesma cor, da mesma textura. É claro que muitos se entregam a essa compulsão porque há uma cobrança permanente pairando no ar. Só os melhores, os mais ágeis e espertos sobrevivem no mercado. E isso acabou virando senso comum – multidões andando por aí em busca do que fazer.

Já há alguns anos tenho adotado um olhar diferente. Tento cortar tudo o que posso e reduzir a vida a certos núcleos que me parecem vitais. Todos reclamam que não sobra uma mísera hora diária para a leitura. Mas sobram três ou quatro para assistir televisão. Os pais reclamam que os filhos quase nunca estão em casa. Mas eles muitas vezes passam mais tempo diante do computador do que os filhos. Namorados trocaram a intimidade física por mensagens online. Um breve monitoramento para saber onde estão parece dar conta de qualquer insatisfação amorosa. E todos convencidos de que é assim mesmo e não há nada o que se fazer. Mas há, sempre há.

O desejo exagerado de obter sucesso nos enredou de tal modo que acabamos aceitando tudo como natural. E com justificativas racionais e fundamentadas. Recusar passou a ser uma falta de educação que poucos se permitem. Participam de tudo, mesmo estando presentes só fisicamente, loucos para voltar pra casa e se livrar do evento chato. Está aí uma expressão que não sai da nossa boca: “Eu não queria ir, mas era um compromisso irrecusável.” E vamos, totalmente sem vontade, cumprir mais um ritual destituído de prazer.

Tenho recuperado umas boas horas depois que aprendi a dizer não. Existem parcerias, existem amizades e existem necessidades profissionais e afetivas. Tudo certo. Mas esse excesso de cuidado para não magoar ninguém está nos transformando em seres amargurados, queixosos. Lembremos do verso de Rimbaud: “Por delicadeza, eu perdi minha vida.”

Consigo fazer muitas coisas e ainda sobra tempo. Resultado de algumas escolhas conscientes. Um exemplo? Na minha casa ninguém leva trabalho que ficou pendente durante o dia. Com a TV quase sempre desligada, conversamos, lemos, assistimos filmes, saímos para jantar. Ou simplesmente ficamos preguiçosamente deitados no sofá, falando ou em silêncio. Isso se tornou tão importante que já não questionamos mais se é certo ou errado. É simplesmente a nossa maneira de ser feliz. E de reclamar menos.

Daqui a pouco teremos que devolver tudo, como nos ensinam os mestres budistas. Melhor pensar na vida como uma brincadeira. E se divertir. Estamos ficando velhos muito cedo. E sérios. E responsáveis. E resmungões.

Estou tentando diminuir o peso das malas que carrego. Não quero perder meu trem para Pasárgada. Sem poesia já é noite. Corremos o risco de morrer sem descobrir que a luz era a própria paisagem.
Autor: Gilmar Marcílio
Fonte: Jornal Pioneiro

sábado, 12 de março de 2011

"[...] É que Narciso acha feio o que não é espelho [...]" (Caetano Veloso - Sampa)

Hoje li uma excelente crônica do escritor e filósofo Gilmar Marcílio e decidi dividí-la com vocês.


Exibidos


A maioria de nós não quer mais ver, quer apenas ser visto

Conheço pessoas que envelheceram cedo, muito cedo. Olham para tudo com melancolia e saudade. Sonham com um tempo que nunca existiu, mas que, na sua fantasia, era perfeito. Suspiram em busca de uma infância e uma juventude perdidas. É seu Éden imaginário. Lá, acreditam, ficaram ancoradas as melhores paisagens de sua existência. E quando alguém aponta uma novidade, não querem nem saber do que se trata. Pensam que o melhor do mundo já ficou para trás.

É uma tentativa de reter lembranças que parecem mofar nas gavetas da memória. Mas é, também, uma recusa em perceber o movimento que gera a vida. Há 100, 200 anos, outros sentiram isso como nós, vislumbrando o esfacelamento de tudo que sustentava sua maneira de ver a realidade mais imediata. E assim acontecerá num futuro próximo e distante. É da natureza humana aparentar-se da insatisfação.

Tenho me esforçado consideravelmente para não parecer pai ou avô de mim mesmo. Sou muito crítico, o que dificulta um pouco a aceitação tácita do que o senso comum considera como as maravilhas da época em que vivemos. Computadores, por exemplo. São instrumentos utilíssimos, que facilitam o trabalho e aproximam mais as pessoas. Mas sigo viciado em abraços, olhares e sensações. Continuo analógico em grande parte do meu dia. Porém, quando recebo e-mails, respondo-os num curto espaço de tempo. Quem os envia fica nessa expectativa e não é simpático provocar frustração nos outros. Só que faço isso sem afobação, sem desespero. Por enquanto, meu maior desafio no universo virtual é o de escrever diariamente num blog. E acho admirável quem se dedica a outras formas de comunicação on-line. Desde que estabeleça limites e não ultrapasse a lógica do razoável.

Essa prédica toda é para chegar a um ponto que considero patológico. Estou cercado de colegas, parentes, vizinhos e desconhecidos que têm Orkut, Facebook, Twitter. Eles parecem se divertir muito com isso e não sou eu quem vai dizer que estão errados. Mas um fato preocupante tem me chamado atenção. Ilustro com uma situação recente: um casal de amigos viajou para Nova York. Assim que desembarcaram do avião, começaram a postar mensagens para que todos soubessem o que estavam vendo, fazendo, visitando, comendo. Estas informações chegavam aos correios eletrônicos a cada 20 minutos, meia hora, no máximo. Do início da manhã até o “boa noite, estamos indo dormir”. Verdade. Não passou um dia sem que o atarefado casal descrevesse em minúcias tudo o que passava pela sua frente. A conclusão óbvia é que aproveitaram pouquíssimo o passeio dos seus sonhos. Não queriam ver, queriam ser vistos, seja em palavras ou em fotos. É claro que depois do terceiro ou quarto dia ninguém estava mais interessado em suas aventuras. O detalhe importante é que eles estão loucamente apaixonados. Quando entre nós, passavam o tempo todo arrulhando, o que nos fazia lembrar esse adorável verso do Quintana: “Não existe nada mais chato no mundo do que o amor... dos outros”.

Conclusão: estamos nos transformando em Narcisos com endereço incerto. Só conseguimos ver a nós mesmos e achamos que todos estão sinceramente interessados em saber o que fazemos a cada segundo de nossa nem sempre interessante vida. Desde a roupa que estamos usando até o que jantamos. Sem entrar em outros detalhes que poderiam parecer escatológicos às almas sensíveis. Tem alguma importância dividir isso? Ajudem-me a entender, porque eu não consigo. Será que corro o risco de ser um sério candidato ao mais velho da turma?

O certo é que a banalidade (quase digo a vulgaridade) se transformou numa espécie de moeda universalmente aceita. Tudo virou platitude, carne de segunda servida em louça Limoges. Que venha o novo para arejar a vida. Sempre, sempre. Mas seria de bom tom se o pudor, algumas vezes, ainda enrubescesse a nossa face.


sábado, 21 de agosto de 2010

O tempo é um escultor?

Grupo RBS
Quem de nós já não disse esta frase: “Foi muito difícil passar por isso, mas a experiência me ensinou muito.” Nem sempre, nem sempre. Muitas vezes essas brechas de luz não resistem à passagem do tempo. Elas abrem um fulcro de consciência enquanto a dor nos corrói, mas costumam desaparecer assim que o sofrimento se atenua em nosso interior. Temos coisas mais urgentes em que pensar. Normal. Mais do que isso, é saudável não ficar acariciando as perdas, transformando-as em mascotes de estimação, enquanto nos afeiçoamos ao papel de vítima. Que, apesar de provocar alguns estragos psíquicos, sempre comove os outros. E principalmente a nós mesmos.

Mas há outro aspecto nesta questão que não costuma ser considerado. Com o acúmulo de fatos vividos, com a soma de emoções positivas e negativas, acabamos perdendo a leveza, a curiosidade. Nossas atitudes se tornam mais rígidas. Endurecemos. Perdemos também muito da espontaneidade que parece ser privilégio mais dos jovens, dos muito jovens. Talvez essa equação hospede um equilíbrio necessário para a manutenção do próprio ser. Quando tudo é fulgor e exuberância, fica faltando a sobriedade que se irmana à reflexão e faz com que acertemos mais em nossas escolhas.

Ainda assim, eu não faria a apologia desbragada da experiência. Vamos envelhecendo e, se não tivermos cuidado, tudo vai se tornando menos interessante. É preciso uma força física e emocional extra para sustentar o olhar de espanto sobre o mundo. E perceber como é necessário manter a alteridade em nossos relacionamentos. Continuar aprendendo com quem gosta de fazer esboços, sem o peso e a gravidade de não poder mais errar.

O que o tempo esculpe dentro de nós? O que nos rouba? É recomendável ter muito cuidado para que essa presumível sabedoria que a maturidade nos dá não nos transforme em homens e mulheres tristes. Pior: em chatos cheios de verdades inquestionáveis. A sedimentação de conceitos conduz à intransigência. Como se fosse uma espécie de crime reconhecer que nos enganamos – como se a gente tivesse preguiça para começar de novo. Os caminhos são múltiplos e quase sempre é possível retroceder. O que parece uma espécie de leviandade pode ser o saudável exercício de correr riscos, de experimentar todas as possibilidades que estão a nossa disposição.

Ninguém quer passar horas e mais horas refazendo o itinerário que considerava definitivo. Mas o fato é que a convicção de que vamos nos tornando mais sábios deixa em nós resíduos de arrogância. Será que podemos mesmo ensinar alguma coisa para os outros? O que se chama de vivência não pode ser terceirizada. Cada um trabalha com um martelo próprio e as feições que vai moldando só pertencem a si mesmo. O escritor Pedro Nava dizia que a experiência é como um carro com os faróis voltados para trás.

Seria bom se nos aferrássemos a essa alegria que vemos no rosto dos que continuam nascendo. Ou, se tanto não for possível, pedir emprestado um pouco dessa vontade inquebrantável que os joga para fora de si mesmos, desejando os encontros.

O fastio não precisa ser o prêmio amargo de quem envelhece. Não são apenas os movimentos do corpo que se pode perder. Há algo mais grave: a falta de mobilidade interior.

Fonte: http://www.clicrbs.com.br/pioneiro/rs/impressa/11,3013449,1232,15342,impressa.html

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Todos os gatos são pardos?


Por Gilmar Marcílio

Que coisa. Eu dou uma rápida espiada uma vez por ano, se muito, para ver o que está acontecendo na noite e continuo com a impressão de que as pessoas mais se entediam do que se divertem. Sou o menos indicado na face da terra para analisar com conhecimento de causa os sintomas reveladores de quem a freqüenta. Mas é aquela história: não é preciso passar uma longa temporada com o diabo para descobrir como é o inferno.
Primeiro ponto: todo mundo precisa dar a impressão de que está se divertindo muito, o tempo todo. Para tanto, estampa-se um sorriso na cara como a dizer que, naquele momento, não existe ninguém mais contente no mundo. Claro que quem sai para se divertir acaba esquecendo seus preconceitos mais evidentes para ter um grau de aproveitamento maior das situações que se apresentam. Ainda bem. Cansei de ver criaturas que se horrorizam com isso e aquilo sob a luz do sol e, algumas horas e um pouco de escuridão depois, se entregam sem pudor algum à prática de atos condenáveis e desejados. Na complexidade de nosso ser talvez seja necessário, para não ficar louco, dar vazão a nossos instintos reprimidos, sob risco de, ao não fazê-lo, acabar como moradores provisórios de uma instituição psiquiátrica.
Mas há determinadas situações que me incomodam. Já não sou mais adolescente e sei que meu grau de resistência a tudo aquilo que extrapola o bom senso não é o mesmo de antigamente. Eu me sinto com 130 anos toda vez que entro numa danceteria e sou literalmente agredido por aquilo que se convencionou chamar de música. No máximo é uma batida sincopada, repetida à exaustão, quase um anestésico para que não se consiga sentir (e muito menos ver) o que se passa ao redor. Não deixa de ser curioso nos três primeiros minutos e meio. Parece quase um ritual de iniciação religiosa. Ou profana. E, sim, uma espécie de êxtase pode ser percebido na face dos freqüentadores. Eu falo disso tudo até com uma certa vergonha, pois meu conhecimento prático sobre o assunto é mínimo. Imaginem, sou do tempo em que diversão era reunir alguns amigos para conversar, ir ao cinema, jantar ou até, valha-me Deus, ficar em casa lendo um bom livro. Inacreditável, mas houve uma época em que se fez isso. E não parecia tão ruim assim.
Outro aspecto interessante: todos ficam de pé, perigosamente colados uns nos outros. Acender um cigarro? Um risco sem tamanho. Seria aconselhável que alguém do corpo de bombeiros ficasse vigiando a uma distância razoável. Se você tiver um copo de bebida na mão terá que executar uma complicadíssima ginástica para conseguir que o líquido em seu interior chegue a sua boca. O espaço disponível para fazer qualquer gesto não excede alguns centímetros. Exagero? Sim, talvez sejam milímetros. Vontade de cumprimentar um amigo? Esqueça. Abraços exigem um movimento circular impensável naquela congestão de criaturas. O jeito é seguir esbarrando em todo mundo, com a maior naturalidade possível.
Nessa minha rápida incursão pela noite, me perguntava todo o tempo (azar o meu, aproveitei menos): será que essa turma toda está feliz? A impressão que tive é que as pessoas presentes só agüentavam estar lá porque fumavam e bebiam o tempo todo. Compulsivamente. Quando cheguei em casa (infelizmente sóbrio) e tirei o casaco, senti um impulso de me pendurar inteiro num cabide e ficar hibernando na área de serviço até o final do dia seguinte. Vai ver que minhas exigências são muito altas e eu até já deva pensar em me recolher a um asilo ou a uma casa de repouso. A gente nem sempre percebe se está sendo lúcido ou intransigente. Ou chato, o que é bem pior.
Mas foi até divertido, confesso. Parece que outra raça, tão diferente da que encontramos sob a luz do sol, vai surgindo pelas frestas da noite até conseguir algum tipo de satisfação. Tenho amigos de longa data que entendem essa palavra como sinônimo de ficar despertos até as 6h, pelo menos nas sextas e sábados. É um dos mistérios que, desconfio, jamais conseguirei entender. Eu ficaria tão mal-humorado ao acordar que seria impossível conviver comigo mesmo, se assim agisse. E as olheiras, então? E a dor de cabeça? Argh, não dá nem pra pensar.
No fundo, talvez seja um pouco de inveja o que eu sinta de quem consegue ser assim... como posso dizer, tão plano e que se diverte tanto com tão pouco. Tenho recebido propostas para fazer laboratórios de estudo nesse quesito. Todos empenhados em mudar minha severa opinião. Só se fosse para defender uma tese de doutorado, nada menos que isso. Mas, vá lá saber se não estou perdendo o melhor da vida. Até porque ser graduado em seriedade nunca garantiu o passaporte para a felicidade. Só não precisava ter tanta fumaça, e a música, bem, poderia lembrar vagamente uma música. Continuarei aqui do lado de fora, espiando, vez que outra, o que acontece no coração selvagem das madrugadas. Mesmo que seja só para descobrir que os gatos, todos, continuam rigorosamente pardos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

NASCIMENTO E MORTE


Texto de autoria de Gilmar Marcílio, extraído da revista Almanaque do Jornal Pioneiro dos dias 08 e 09/12/07

"Passamos a vida negando o mais evidente dos fatos: o de que vamos morrer. Mesmo as pessoas extremamente religiosas têm uma considerável dificuldade em enfrentar de olhos abertos a idéia do próprio fim. Normal. Ninguém imagina que possa ser diferente, exceto os verdadeiramente iluminados, os que já compreenderam que estamos imersos em um padrão de existência - que Buda chamou de Samsara, nossa passagem pela terra - , num ciclo de nascimentos e mortes. Mesmo agora, olhando através da janela a chuva que cai, sentindo o inefável perfume do jasmineiro que começa a florescer, parece-me impossível pensar sobre minha própria morte.
A literatura, o cinema, e como de resto a arte em geral, se encarregam de nos mostrar como tudo é efêmero. A idéia até se torna suportável quando somos espectadores. Ainda outro dia, assistindo a um filme chamado O Mais Belo Dia de Nossas Vidas, numa cena que remetia ao passado, vi-me transportado para a minha infância, brincando com minha irmã, subindo nos pés de bergamota, gastando o tempo da forma mais generosa possível. Meus pais e minhas tias ainda eram jovens e cuidavam de nós de tal maneira que algo em mim parecia dizer 'relaxe, está tudo bem, sempre vai ter alguém protegendo você'. Hoje, algumas dessas pessoas já morerram e as outras se encontram imersas em sua própria velhice. E assim também será comigo. E com você. Mas é preciso não desviar o pensamento quando esse tipo de percepção nos assalta. Não estaremos sendo mórbidos, apenas refletindo sobre a ordem natural dos fatos.
Com as horas escorrendo entre os dedos, como uma ampulheta invisível que carregamos em alguma parte de nosso corpo, resta-nos a certeza de que não podemos desperdiçar manhãs de sol, gentilezas para com amigos e desconhecidos, um certo jeito de acolher aqueles que fazem parte de nossos dias. E de velar com um sentido profundo de responsabilidade todos os seres que habitam este planeta. Entristeço quando alguém maltrata um bicho ou destrói uma planta. Nada está separado de nada e, inevitavelmente, o mal que pensamos estar causando aos outros nos é devolvido. Ação e reação, não há como escapar desse processo no qual tudo está imerso. Nem é necessário filiar-se a algum credo religioso para perceber isso. Eu simpatizo muito com o budismo, mas não penso em renegar os ensinamentos que encontro na doutrina católica, no espiritismo, na umbanda. Todos contribuem de maneira valiosa para que possamos entender melhor o que nos acontece e aquilo que chamamos de existir.
O tempo vai passando sem que percebamos as mudanças que ele provoca em nossa estrutura física e mental. Se tudo está circunscrito na idéia de causa e consequência, então cabe a nós orar e vigiar, como está na Bíblia. Tenho dificuldade em entender aqueles que dizem sentir tédio de tudo. Mesmo quando não somos solicitados a agir, há tantas possibilidades escondidas em nosso mundo interior que dezenas e mais dezenas de anos não seriam suficientes para esgotá-las. A vida é longa e é curtíssima. Depende da maneira como tratamos as experiências que se apresentam. Ao nascer, parece que caímos dentro de um oceano cheio de acontecimentos em potencial, sem os limites que mais adiante descobriremos. Tudo é possível, não há motivo para ter pressa. é essa certeza do infinito, do tempo que não se esgota, que encontramos nos olhos das crianças e dos adolescentes. Mas um dia será preciso investigar a matéria desse mesmo tempo que parecia se refazer quanto mais o gastávamos.
Penso nisso tudo enquanto a chuva persiste nesta tarde de domingo. Investigo mentalmente como passei as horas que antecederam a escrita deste texto. No breve exame, me dou conta de que fui insuficiente não só em atitudes, mas também em observar mais cuidadosamente o que se passou ao meu redor. Um dia - logo, tão logo - teremos que devolver tudo o que acreditamos possuir para sempre. Alguns preferem nem pensar nessa hipótese. Outros, talvez mais cuidadosos, se dão conta de que algumas engrenagens começam a falhar, que a contemplação toma o lugar do desejo. Como nas estações que se sucedem, é preciso aprender a se retirar para que outros ocupem o espaço que parecia ser nosso de fato e de direito. Entre uma respiração e outra, entre um abrir e fechar de pálpebras, algo vai se desmanchando. Somos todos pequenos rios encharcados de tempo. Comuns, únicos. Nossa pequena história repete e sustenta a história do mundo."
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