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quinta-feira, 16 de junho de 2011

AS FACES DE EVA

     Dia desses postei um texto magnífico, intitulado In Nomine Feminae, da poetisa e contista carioca Laura Esteves. Fiquei tão maravilhada com a profundidade do texto, que decidi escrever para o e-mail da autora a fim de parabenizá-la e de dizer-lhe o quanto fiquei encantada. Ainda no mesmo dia a simpática autora respondeu meu e-mail, gentilmente dizendo-me que, se eu tivesse interesse, ela poderia enviar-me alguns livros pelo correio. Obviamente minha resposta foi positiva e lá fiquei eu, aguardando ansiosamente a chegada dos tais livros.
     Na última quinta-feira, 09/06/11, recebi em casa dois exemplares da autora, intitulados, respectivamente, Rastros e O dia em que as mulheres voaram e outras histórias.

     Amigos, não tenho palavras para expressar o quanto esse livros se tornaram especiais para mim e o quanto fizeram crescer, em mim, a admiração por esta poetisa fantástica.

     E agora, para dar-lhes uma palhinha da sensibilidade da autora, e de sua profunda compreensão do universo feminino, presenteio vocês com o belíssimo poema As Faces de Eva, que está no livro Rastros.
 
AS FACES DE EVA
- para as mulheres, sempre atrizes - 

Muitos os meus nomes:
bruxa, vaca, piranha, gostosa,
puta, santa, rainha, mater-dolorosa.
Alguém decidiu por mim.
Conveniente, necessário
para todos: família, sociedade.
Concordei, sempre concordei,
carcereira de minha própria vontade.
Ah! muitas as minhas faces:
lebre, cobra, aranha-negra, camaleoa.
Camuflagem perfeita!
Minei pelas reentrâncias,
me esgueirei pelos subterrãneos,
sempre alerta, sempre à espreita.
Foi o jeito medonho
que encontrei para existir,
para não matar meu sonho.
Quando quiseram tirar o prazer
do meio das minhas pernas, disfarcei.
Falsa aparência.
Com paciência deixei a brasa
escondida lá embaixo, pronta para ser acesa.
Trouxe o prazer para dentro do peito, do pensamento.
Triângulo perfeito: sexo, coração e mente.
Quando me trancaram entre paredes
e tornei-me rainha do lar, busquei as delicadezas.
Não me deixei esmagar.
Equilibrei-me num fio tênue de esperança,
que passava um pouco além do meu quintal.
Quando batia o bolo com ar angelical,
me lambuzava de tortos pensamentos.
O comboio lá dentro: planc, plan, planc.
Pura arritmia.
Pensamentos só meus, ninguém mais sabia.
Quando me queimaram viva nas fogueiras,
gritei impropérios e maldições.
Saíam como açoites de minha garganta
e entravam pelas frestas das portas.
Chicoteavam os habitantes da vila.
As palavras bem lá no fundo:
"um novo tempo. . . um novo tempo. . . 
sem castigo ou coação. . . "
Tornei-me lenda e mito.
Ganhei o sexto sentido:
os cinco já conhecidos e o da premonição.
Chegou o novo tempo.
Depois de tantos açoites, de tantos ais, estou aqui.
Santa? Puta? Rainha?
Não importa, rompi tudo, derrubei altares e catedrais.
Fui em busca do meu gozo, do meu sonho, do meu ser.
Hoje, estou aqui, repito.
Do jeito que sempre quis.
Sou mulher/personagem de minha vida: atriz.

(Para a peça "Mulher, poema do século", Companhia Teatral Cláudio Filiciano)



     Se vocês quiserem desfrutar de um pouquinho da sensibilidade de Laura Esteves, podem visitar os endereços abaixo e ler alguns de seus escritos:

     Além disso, é possível encontrar seus livros nos links abaixo:
     Você encontra o maravilhoso livro Rastros AQUI.
     O livro O dia em que as mulheres voaram e outras histórias (e outros livros dela) você encontra AQUI e AQUI. (neste último link você também encontrará outros títulos da autora)
     E, finalmente, você encontra outros livros da Laura Esteves AQUI.

     Deixo para vocês esse lindo vídeo de apresentação da autora, com trechos de suas poesias: 


sábado, 28 de maio de 2011

In Nomine Feminae



Parte I

Nasceu branca, muito branca. Ganhou apelidos: ovelha, algodão, russa, brancazeda. Cresceu como as outras meninas da aldeia. Mocinha, fatos estranhos começaram a acontecer. Não menstruou sangue. Só um líquido branco escorria-lhe pelas pernas. Mas os seios deram de crescer de forma anormal. Ganhou dois novos apelidos: flores-brancas e vaca.



Parte II

Com os seios fartos, veio o leite aos borbotões. Rios de leite. Oceanos. E durante a grande seca, quando tudo se acabou, foi ela quem alimentou o povo da aldeia, com o manjar que possuía em seu peito. Homens, mulheres e crianças. Ganhou outro nome: santa. Tudo serenado, os pastos verdejaram e as videiras se encheram de cachos de uvas. Passou, então, a ser conhecida por um único apelido: puta. 
Laura Esteves

(Texto extraído do Livro da Tribo 2011 - editora da Tribo - páginas 137 e 139)



Sem dúvida um dos textos mais interessantes e ilustrativos que já li...
Bjs a todos!
Déia

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